A colheita
- 15 de mai. de 2017
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Às vezes, a colheita deixa-nos desapontados, deprimidos e pode mesmo retirar a possibilidade de nos alegrar. Após o longo trabalho todos os dias, nem o tempo nem a vida nos deu tempo para mais.
Não choveu. E pequenos surtos de vida estavam a secar e a morrer. Era só o que procurava conseguir agora. Estas pequenas batatas que não podiam crescer.
Apesar disso, nada pode impedir de levantar a minha mão em direção ao céu, de forma a saudar a alegria de permanecer vivo neste deserto, neste difícil lugar que sempre foi meu e vai continuar assim até ao fim.
Os meus pés, as minhas mãos e os meus olhos vivem com a poeira e a imundice. Exausto desta terra e cansado de ver nascer pequenos rebentos, algumas batatas e reunir com o resto da minha esperança, mas com a mesma boa vontade.
Eu não estou sozinho, estamos mais em casa. E penso neles o tempo todo, muito mais do que eu penso de mim mesmo. Talvez seja por isso que me tornaram patriarca. Isso e os longos anos que se acumulam. Andar a pé, a agricultura, existindo.
E como patriarca espera-se que consiga fornecer comida, conforto e futuro. E como posso faze-lo agora? Como posso oferecer aquilo que agora tanto me falta? Quem posso pedir essa inspiração?
Pergunto-me enquanto levanto a minha mão, em silêncio, e semeio nesta terra fria o calor de uma oração.
Nela estão contidas as promessas às minhas preces e a semente das minhas lágrimas. E as palavras, poucas e claras, da minha fé sincera.
Essa é a fé de todos aqueles que, comigo, anseiam para ver cair sobre nós a pena doce da esperança. E vê-la ficar. E junto a ela poder prosperar.





















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